“Seja feita a tua vontade” é o coração da fé cristã
A frase “Seja feita a tua vontade” faz parte da oração que Jesus nos ensinou, o Pai Nosso (Mateus 6:10). É um convite a submissão, confiança e entrega total à soberania de Deus. É como dizer: “Senhor, mesmo que eu não entenda, mesmo que doa, eu confio que o teu plano é melhor do que o meu.”
Na prática, essa frase é um dos maiores atos de fé que um cristão pode pronunciar. E viver. Ela exige renúncia ao controle, aceitação do mistério, e esperança no caráter de Deus.
Por que conseguimos dizer isso facilmente… quando é com os outros? Quando alguém distante de nós passa por uma tragédia, uma enfermidade, ou uma perda, geralmente conseguimos dizer com naturalidade: “Seja feita a vontade de Deus.” Por quê?
Estamos com o coração menos envolvido emocionalmente. Não somos nós que estamos sofrendo a dor imediata. Não temos o mesmo nível de apego, de afeto ou de medo da perda. Temos uma visão mais “racional” da situação.
É como se disséssemos: “Eu confio em Deus, desde que não seja a minha cruz para carregar.” É humano. Mas revela uma tensão. Nós acreditamos que Deus é soberano… até que Sua vontade contradiga a nossa.
Mas por que é tão difícil dizer isso… quando é com a gente? Quando estamos no leito de hospital, ou quando alguém que amamos profundamente está entre a vida e a morte, essa frase se torna quase impossível de dizer. Por quê?
1. Porque amamos profundamente. Quanto mais amamos, mais queremos proteger, salvar, preservar. O amor humano luta contra a perda.
2. Porque temos medo da resposta. Dizer “Seja feita a tua vontade” pode significar aceitar que Deus leve quem amamos. E isso nos assusta. Temos medo de que a vontade de Deus não seja igual à nossa.
3. Porque confundimos fé com controle. Às vezes achamos que, se orarmos com fé suficiente, Deus tem que fazer o que pedimos. Mas a fé verdadeira não é manipular Deus, é confiar Nele, mesmo quando Ele diz “não” ou “espere”.
4. Porque não entendemos o propósito da dor. Em meio à dor, é difícil acreditar que Deus continua bom. Mas a fé cristã não promete ausência de dor, promete presença de Deus na dor.
Jesus mesmo enfrentou esse dilema. No Getsêmani, Ele orou: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como Tu queres.” - Mateus 26:39. Jesus não negou a dor, não deixou de pedir livramento, mas se rendeu à vontade do Pai. Ou seja, orar por cura, restauração, milagre, é correto, é legítimo, é humano. Mas submeter nosso desejo à vontade de Deus, é divino, é fé.
Há duas verdades que convivem em tensão no coração do cristão maduro: Deus é todo-poderoso e pode fazer milagres. Deus é soberano e pode dizer “não”, mesmo quando amamos muito. E a fé verdadeira está entre essas duas verdades. Oramos com esperança, mas confiamos com humildade.
A frase nos convida a viver com a entrega, reconhecendo que Deus sabe mais do que nós. E com humildade entender que não controlamos a vida. Que podemos passar pelo luto com fé, chorando, lamentando, sofrendo, mas sem perder a esperança. Essa esperança eterna que nos lembra que em Jesus Cristo, nem a morte é o fim.
Quando a fé amadurece, com o tempo, muitos cristãos descobrem que a vontade de Deus, mesmo quando dolorosa, é sempre boa, perfeita e agradável (Romanos 12:2). Não porque ela sempre nos poupa da dor, mas porque ela nunca nos abandona na dor. “Fé não é acreditar que Deus fará o que eu quero. Fé é confiar que Deus fará o que é melhor, mesmo que doa.”
Pr.
Gilberto Silva – Gurupi - TO