Educar agora virou ameaça?
Por muito tempo, a educação foi reconhecida como um dos
pilares fundamentais da vida em sociedade. Mesmo em contextos de divergência
política, religiosa ou cultural, havia um consenso mínimo de que sem escola e
sem educadores não há futuro possível. Hoje, esse consenso está seriamente
abalado. O que antes era espaço de construção do conhecimento transformou-se,
para alguns, em alvo de suspeita, hostilidade e ataques sistemáticos.
A intolerância contra a educação e contra os educadores não nasce do acaso. Ela é fruto de um ambiente marcado pelo medo das mudanças sociais, pela polarização extrema e pela tentativa de reduzir a complexidade do mundo a explicações simplistas e rótulos ideológicos. Nesse cenário, o professor passa a ser retratado não como mediador do saber, mas como inimigo a ser combatido.
Expressões como “doutrinação”, “ideologia” ou “marxismo cultural” deixaram de ser conceitos debatidos academicamente e passaram a operar como instrumentos retóricos de deslegitimação. Não explicam a realidade. Simplesmente produzem medo. Funcionam como atalhos emocionais para desacreditar a escola, atacar o educador e enfraquecer a confiança social na educação pública e privada.
Dizer que professores mentem, enganam ou manipulam alunos não é apenas uma crítica pedagógica, é uma forma de violência simbólica. Ao lançar suspeita generalizada sobre quem ensina, mina-se a autoridade intelectual do educador e se instala uma lógica perigosa, de que o conhecimento deve ser controlado, vigiado e censurado. Trata-se de um movimento que não fortalece famílias nem estudantes, muito mais que isso, enfraquece a democracia.
Na escola real, distante das caricaturas produzidas em discursos inflamados, o que existe é diálogo, conflito de ideias e aprendizagem coletiva. Discordar faz parte do processo educativo. Questionar, argumentar e mudar de opinião são sinais de formação crítica, não de ameaça moral. O que a escola não pode e não deve tolerar é discriminação, violência ou exclusão. Ainda assim, paradoxalmente, muitos ataques à educação se apoiam justamente em discursos que justificam a exclusão, inclusive quando travestidos de defesa moral ou religiosa.
É preciso dizer com clareza. Quando a religiosidade ou valores pessoais são usados para atacar minorias, negar direitos ou silenciar debates, o problema não está na escola, mas na instrumentalização da fé como arma política. A educação, ao contrário, busca ensinar a convivência plural, o respeito às diferenças e a dignidade humana, e são esses princípios que deveriam unir, não dividir.
Vivemos também uma crise de confiança no conhecimento. A desvalorização da ciência, o desprezo por evidências e a multiplicação de “verdades alternativas” criaram um terreno fértil para ataques às instituições educativas. Nesse contexto, o professor incomoda porque convida a pensar, a verificar fontes, a comparar argumentos. Em tempos de certezas fáceis, pensar virou ato subversivo.
Atacar educadores é atacar a possibilidade de uma sociedade crítica e madura. É escolher o medo em vez do diálogo, o controle em vez do pensamento, o rótulo em vez do argumento. Defender a educação não é defender uma ideologia, mas o direito de aprender, discordar e conviver em uma sociedade plural.
Se queremos um futuro menos violento, menos intolerante e mais humano, precisamos reafirmar algo simples e essencial, que os educadores não são inimigos. Educadores são construtores de pontes em um tempo que insiste em erguer muros. E nenhuma sociedade que despreza seus professores consegue, de fato, educar-se para o amanhã.
Pr. Gilberto Silva – professor universitário aposentado, jornalista, poeta e escritor e teólogo. Atual presidente da Associação dos Professores Universitários de Gurupi.



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