Deus nos deu inteligência, mãos, pernas, capacidade de pensar, trabalhar, criar, aprender, administrar, amar, servir e transformar a realidade ao nosso redor. Deu-nos dons, oportunidades, relacionamentos, recursos e capacidade de tomar decisões.
A grande pergunta é: por que Deus nos daria tudo isso se sua vontade fosse que ficássemos permanentemente sentados, esperando que Ele fizesse aquilo que colocou condições para que nós mesmos fizéssemos?
A fé cristã não é um convite à passividade. Dependência de Deus não significa incompetência humana. Confiar em Deus não significa abandonar a responsabilidade.
Pelo contrário. A Bíblia diz que fomos criados para cultivar, guardar e desenvolver aquilo que Deus colocou em nossas mãos (Gn 2:15). A parábola dos talentos (Mt 25:14-30) é especialmente contundente. Os servos receberam recursos diferentes e foram avaliados não pelo que receberam, mas pelo que fizeram com aquilo que receberam.
O problema não está em depender de Deus. O problema está em transformar a dependência de Deus em dependência dos homens que dizem falar em nome de Deus. Jesus nunca ensinou uma fé anestesiada
Observe os ensinamentos de Jesus. Quando milhares de pessoas estavam com fome, os discípulos disseram, em essência: “manda o povo embora”. Jesus respondeu: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14:16). Que princípio poderoso!
Jesus poderia ter simplesmente realizado o milagre sem envolver ninguém. Mas mandou os discípulos procurarem o que havia disponível. Havia cinco pães e dois peixes. Era pouco, mas era alguma coisa. O milagre não anulou a participação humana. Jesus multiplicou o pão, mas os discípulos distribuíram.
Isso revela uma verdade espiritual. Que Deus pode fazer aquilo que não conseguimos fazer, mas não devemos usar a incapacidade como desculpa para não fazer aquilo que está ao nosso alcance.
Quando Jesus curou o paralítico, disse: “Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa” (Mc 2:11), não disse para que ele continuasse deitado e esperasse. Quando encontrou o homem junto ao tanque de Betesda, perguntou se ele queria ser curado, conforme descrito em João 5:6. Depois da cura, disse: “Levanta-te, toma o teu leito e anda” (Jo 5:8).
Há uma dimensão espiritual profundamente humana nessas palavras. Levante-se. A graça não é uma autorização para permanecer prostrado. Ore, mas também faça. Jesus ensinou seus discípulos a orar. “Seja feita a tua vontade.” “Dá-nos hoje o nosso pão.” “Venha o teu reino.”
Mas Jesus também ensinou a trabalhar, servir, administrar, repartir, perdoar, cuidar, semear, perseverar e produzir frutos. A oração nunca foi apresentada por Jesus como substituta da responsabilidade.
Na parábola do bom samaritano, em Lucas 10:25-37, Jesus não ensinou o homem ferido a esperar uma manifestação sobrenatural. Ele mostrou alguém que viu, aproximou-se, tratou as feridas, colocou o homem sobre seu animal, levou-o a uma hospedaria e pagou pelo cuidado.
Isso é fé em movimento. É misericórdia com mãos. É espiritualidade com atitude. É oração transformada em ação. O problema é da religião, que cria dependentes.
Existe uma deformação perigosa da fé quando determinados líderes começam a ensinar, direta ou indiretamente, que a pessoa precisa deles para interpretar Deus, vencer na vida, tomar decisões e receber a bênção.
A pessoa deixa de consultar as Escrituras e passa a consultar o líder. Deixa de desenvolver discernimento e passa a esperar ordens. Deixa de pensar e passa a repetir. Deixa de agir e passa a esperar.
E quanto mais dependente fica, mais fácil se torna controlá-la. Nesse modelo, o líder se transforma em intermediário permanente entre Deus e o indivíduo. Mas o Evangelho rompe com essa lógica. Jesus disse: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32).
A verdade de Cristo não produz escravos de líderes religiosos. Produz pessoas livres. O apóstolo Paulo chegou a dizer aos cristãos de Corinto: “Tudo é vosso” (1Co 3:21).
Não significa que o cristão seja dono absoluto de tudo, mas que, em Cristo, ele não deve viver espiritualmente infantilizado e dependente de personalidades humanas. Deus não tem medo da nossa inteligência.
Talvez precisemos recuperar uma verdade que a religião, algumas vezes, tenta esconder. Que usar a inteligência também pode ser uma forma de glorificar a Deus. Pensar não é falta de fé.
Questionar não é necessariamente rebeldia. Estudar não é falta de espiritualidade. Planejar não é incredulidade. Trabalhar não é confiar menos em Deus.
Desenvolver uma profissão, abrir uma empresa, estudar em uma universidade, produzir conhecimento, inventar, pesquisar, administrar bem os recursos, criar empregos, cuidar da família e contribuir para a comunidade podem ser expressões concretas de vocação e responsabilidade.
Provérbios valoriza profundamente a sabedoria, o conhecimento, o trabalho, o planejamento e a prudência. Jesus também perguntou: “Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir?”, em Lucas 14:28.
Observe que Jesus falou de calcular. Isso é planejamento. É inteligência. É responsabilidade. É antecipação. Jesus não disse: “Não calcule. Apenas tenha fé.” A fé não elimina o planejamento. O milagre não deve ser usado como desculpa para a irresponsabilidade
Há uma frase que precisa ser repensada: “Quando eu não puder mais, Deus fará.” Pode ser uma declaração de esperança, mas também pode se transformar em uma desculpa perigosa. A Bíblia não apresenta Deus como aquele que sempre espera o homem chegar ao fundo do poço para então agir.
Muitas vezes, Deus age antes, durante e depois da crise, utilizando pessoas, conhecimentos, recursos e oportunidades. José utilizou inteligência administrativa para preparar o Egito para a fome, em Gênesis 41.
Neemias orou, mas também planejou, pediu autorização, conseguiu recursos, inspecionou os muros e organizou pessoas para reconstruí-los (Ne 1–4). Paulo orava, mas também trabalhava fazendo tendas (At 18:3). Os primeiros cristãos oravam, mas também repartiam seus bens e cuidavam dos necessitados (At 2:44-45).
Portanto, a pergunta não deveria ser apenas: “O que Deus pode fazer por mim?” Também precisamos perguntar: “O que Deus já colocou em minhas mãos para que eu faça?”
As migalhas podem ser espirituais e aí existe um perigo. Uma pessoa pode passar anos recebendo pequenas doses de motivação religiosa e continuar exatamente no mesmo lugar.
Toda semana recebe uma mensagem. Recebe uma promessa. Recebe uma palavra. Recebe um “Deus vai fazer”. Recebe um “aguarde o tempo de Deus”. Recebe um “não tente entender”. Recebe um “não questione”. Recebe um “obedeça”. E continua esperando.
Enquanto isso, talvez Deus já tenha colocado nas mãos dela inteligência suficiente para estudar, trabalhar, empreender, organizar a própria vida, buscar conhecimento, construir relacionamentos saudáveis, superar limitações, servir à comunidade e produzir alguma coisa boa.
Não estou dizendo que todas as dificuldades podem ser vencidas simplesmente com esforço. Não podem. Existem doenças, tragédias, perdas, injustiças, limitações econômicas, circunstâncias fora do nosso controle e situações em que realmente precisamos da intervenção de Deus e da ajuda de outras pessoas.
Mas também existe uma forma de espiritualidade que transforma a impotência em identidade. A pessoa começa a acreditar que nasceu para receber, nunca para produzir. Para pedir, nunca para contribuir. Para esperar, nunca para construir. Para consumir, nunca para criar.
Para depender, nunca para desenvolver aquilo que Deus lhe concedeu. Isso não corresponde à visão bíblica do ser humano. Depois da ressurreição, Jesus não disse aos discípulos: “Fiquem sentados esperando.”
Ele disse: “Ide” (Mt 28:19). E em Atos 1:8: “Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas...” O Espírito Santo não veio para produzir uma comunidade parada, mas uma comunidade enviada.
O poder recebido deveria se transformar em testemunho. Oração deveria se transformar em missão. Conhecimento deveria se transformar em serviço. Fé deveria se transformar em obras. Como escreveu Tiago: “A fé, se não tiver obras, por si só está morta” (Tg 2:17). Não é a obra que salva. É a fé que salva. Mas a fé verdadeira produz movimento.
Deus não quer nossas migalhas, e também não quer que vivamos de migalhas. Talvez seja necessário inverter uma lógica. Deus não nos criou para viver eternamente das migalhas que alguém decide entregar. Ele nos deu capacidade para participar da construção da vida.
A criança cresce. O jovem estuda. O adulto trabalha. O profissional se aperfeiçoa. O cidadão participa. O cristão serve. A comunidade se desenvolve. A igreja cumpre sua missão. E tudo isso pode acontecer debaixo da dependência de Deus.
Não precisamos escolher entre orar e agir. Precisamos aprender a fazer as duas coisas. Ore como quem depende de Deus e trabalhe como quem recebeu uma responsabilidade. Peça sabedoria e estude. Peça provisão e trabalhe.
Peça uma porta e prepare-se para atravessá-la. Peça direção e tome decisões. Peça um milagre, mas não chame de milagre aquilo que Deus já lhe deu capacidade para realizar.
A verdadeira dependência de Deus não significa dizer que Deus fará tudo por mim, ou por você. Significa dizer: “Deus, tudo o que sou e tudo o que tenho vem de Ti. Dá-me sabedoria para usar bem aquilo que colocaste em minhas mãos.”
Essa é uma dependência madura. Não é dependência infantil. É parceria responsável com a graça. Paulo escreveu em 1 Coríntios 3:9: “Porque de Deus somos cooperadores.” Que expressão extraordinária: cooperadores. Deus continua sendo Deus. Nós continuamos sendo criaturas. Ele é a fonte.
Nós somos instrumentos. Ele dá a vida. Nós cultivamos. Ele dá os dons. Nós desenvolvemos. Ele abre oportunidades. Nós precisamos aproveitá-las. Ele pode realizar o impossível. Nós devemos fazer o possível.
E quando chegarmos diante de algo que ultrapassa nossas forças, então poderemos dizer: “Senhor, fiz tudo aquilo que estava ao meu alcance. Agora, aquilo que não posso fazer, coloco em tuas mãos.”
Talvez essa seja uma das formas mais bonitas de compreender a fé e não ficar sentar esperando Deus fazer aquilo que podemos fazer É fazer com excelência aquilo que podemos, enquanto confiamos em Deus para aquilo que está além de nós.
O cristianismo de Jesus não é uma religião para anestesiar pessoas. É uma mensagem para libertá-las. Não é uma fábrica de dependentes de homens. É uma escola de discípulos. Não é um convite à acomodação. É um chamado para levantar, caminhar, servir, produzir frutos e transformar o mundo.
Por isso, talvez a oração devesse ser menos “Senhor, faça tudo por mim.” E mais: “Senhor, mostra-me o que colocaste em minhas mãos e ensina-me a fazer o melhor possível com isso.” Porque Deus pode fazer milagres. Mas também pode estar esperando que alguém simplesmente levante-se e comece a caminhar.
Pr. Gilberto Silva – Gurupi - TO
