Pedro Casaldáliga, presente na memória, presente na luta

 


Pedro Casaldáliga, presente na memória, presente na luta

Há homens que passam pela vida. E há homens que deixam marcas tão profundas que o tempo não consegue apagar. Pedro Casaldáliga foi um desses homens.

Hoje, seis anos depois de sua partida, sua voz continua ecoando pelas margens do Araguaia, entre a poeira da estrada, a terra vermelha e a memória de tantos homens e mulheres que encontraram nele não apenas um bispo, mas um companheiro de caminhada, um defensor dos pobres, dos povos indígenas, dos trabalhadores e de todos aqueles que tantas vezes foram empurrados para as margens de uma sociedade marcada pela desigualdade.

Pedro chegou ao Araguaia e fez da região não apenas sua morada, mas seu lugar de missão, de compromisso e de luta. Escolheu viver próximo dos pequenos. Caminhou entre os pobres. Conheceu suas dores, ouviu suas histórias e transformou a defesa da dignidade humana em uma das grandes razões de sua existência.

Não foi um homem de palácios. Foi o homem dos pés descalços na terra vermelha. O bispo que não se afastou dos que sofriam. O religioso que compreendeu que o Evangelho não poderia ser anunciado de costas para a injustiça, para a fome, para a violência, para a concentração da terra e para o abandono daqueles que pouco tinham para se defender.

Sua batina não o afastou do povo. Ao contrário, tornou-se símbolo de uma Igreja que escolheu estar ao lado dos que clamavam por justiça.

Pedro Casaldáliga compreendeu que a fé não poderia ser apenas palavra. Era necessário transformá-la em gesto, presença, solidariedade e compromisso. Por isso, sua trajetória missionária se confundiu com a defesa dos direitos humanos e com a luta pela dignidade daqueles que não tinham voz.

Sua poesia também era uma forma de resistência. Seus versos carregavam a beleza do Araguaia, mas também a indignação diante das injustiças. Em sua escrita havia ternura e denúncia. Havia esperança e rebeldia. Havia o amor pelo povo e a disposição de enfrentar estruturas que produziam sofrimento.

Pedro foi, sobretudo, um homem coerente com aquilo em que acreditava. Por isso sua morte não representa o fim de sua presença. Há pessoas que continuam vivendo nas ideias que semearam, nas lutas que inspiraram e nos caminhos que ajudaram a abrir.

Pedro continua presente nos trabalhadores que não desistem de lutar por seus direitos. Nos povos indígenas que defendem suas terras e sua cultura. Nos homens e mulheres que enfrentam a pobreza sem perder a esperança. Nos missionários que entendem que servir a Deus também significa servir ao próximo. Nos que acreditam que outro mundo é possível e que a justiça não pode ser apenas uma palavra bonita pronunciada em discursos.

A curva do Araguaia talvez tenha recebido seu corpo, mas não conseguiu receber sua história inteira. Porque uma vida dedicada aos outros não termina quando o coração para de bater. Ela permanece. Permanece na memória.  Permanece na poesia. Permanece na caminhada. Permanece naqueles que aprenderam com seu exemplo.

Pedro e pedra quase se confundem na paisagem do Araguaia. A terra o recebeu, mas sua alma sensível, sua coragem, sua disposição de luta e seu compromisso com os desvalidos permanecerão para sempre na memória daqueles que compreenderam a grandeza de sua passagem por este mundo.

Seis anos depois, ainda podemos ouvir sua voz. E talvez a melhor maneira de homenageá-lo não seja apenas recordar o homem que ele foi, mas assumir a responsabilidade de continuar algumas das lutas que ele abraçou. Porque legado não é aquilo que simplesmente deixamos para trás. Legado é aquilo que continua caminhando depois que partimos.

Pedro Casaldáliga deixou um legado de fé comprometida, de coragem diante das injustiças, de solidariedade com os pobres, de respeito aos povos originários e de esperança em um mundo mais humano e mais justo. Sua vida nos ensina que não basta enxergar a dor. É preciso aproximar-se dela.

Não basta denunciar a injustiça. É preciso enfrentá-la. Não basta falar de esperança. É preciso ajudar a construi-la. E não basta perguntar o que podemos ganhar da vida. É preciso perguntar o que podemos deixar para aqueles que virão depois de nós.

A curva do rio te espera, Pedro, para descansar junto à “graça branca e à correnteza franca”. Mas o Araguaia continua levando adiante a tua memória. E enquanto houver injustiça, haverá quem se lembre da tua coragem. Enquanto houver pobres e excluídos, haverá quem se lembre da tua opção pelos pequenos.

Enquanto houver gente lutando por dignidade, haverá um pouco de Pedro Casaldáliga caminhando com ela. Que o tempo não nos faça esquecer. Que a memória não seja apenas saudade. Que o legado se transforme em compromisso. Pedro Casaldáliga, bispo do Araguaia, poeta, profeta e companheiro dos pobres.

Seis anos depois, teu corpo repousa, mas tua luta continua. Pedro Araguaia, presente. Pedro Casaldáliga, presente. Na memória, na poesia, na fé e na luta. Presente hoje, presente sempre. Ousar lutar. Ousar vencer. Ousar continuar.

Gil Correia – Professor aposentado, jornalista e escritor tocantinense