Hoje eu queria conversar com você, pai.
Não sei exatamente onde essa conversa chegaria. Talvez começasse com um simples como você está, mesmo sabendo que essa pergunta já não pode ser respondida como antigamente. Talvez eu apenas me sentasse ao seu lado, como tantas vezes fizemos, e ficasse em silêncio. Porque existem silêncios que dizem mais do que muitas palavras.
A verdade é que ainda sinto sua falta. O tempo passou. A vida continuou. Os dias foram se sucedendo, os cabelos foram ficando mais brancos, vieram novas histórias, novas responsabilidades, novas pessoas. Mas há uma coisa que o tempo não conseguiu levar: a saudade.
Ela permanece. Às vezes chega de mansinho, trazida por uma lembrança qualquer. Uma fotografia, uma música, uma palavra, um lugar, um jeito de falar. E, de repente, parece que você está perto outra vez.
É
estranho como a memória consegue diminuir as distâncias. Por alguns instantes,
volto a ser apenas filho. E você volta a ser aquele pai que eu conheci,
admirei, questionei, abracei e amei.
Hoje eu compreendo melhor algumas coisas que talvez não entendesse quando era mais jovem. A gente só percebe o tamanho de certos ensinamentos quando a vida nos coloca diante das mesmas dificuldades que nossos pais enfrentaram.
Quantas vezes me peguei pensando se meu pai estivesse aqui, o que ele diria? E essa pergunta, muitas vezes, já traz a resposta. Porque um pai não permanece apenas nas fotografias. Permanece nos gestos dos filhos, nas palavras que ensinou, nos valores que transmitiu, nas lembranças que deixou e até na maneira como aprendemos a enfrentar a vida.
Você partiu, pai, mas deixou muito de você em mim. Deixou lembranças que o tempo não apaga. Deixou histórias que ainda conto. Deixou saudade, é verdade, mas deixou também amor. E talvez seja essa a maior herança que alguém possa deixar: ser lembrado não apenas porque um dia existiu, mas porque fez diferença na vida de alguém.
E você fez diferença na minha. Há momentos em que a saudade dói mais. Nesses dias, procuro não apenas olhar para trás, mas olhar para cima. Minha fé me ensina que a morte não é a palavra final.
A Bíblia diz que “estaremos para sempre com o Senhor”, em 1 Tessalonicenses 4:17. E é nessa promessa que encontro consolo. Não sei explicar os mistérios da eternidade, mas sei em quem tenho colocado minha esperança.
Por isso, pai, prefiro acreditar que este não foi um adeus definitivo. Foi apenas uma separação por algum tempo. Um dia, quando Deus permitir, a saudade dará lugar ao abraço. E talvez, naquele encontro, não precisemos dizer muita coisa. Talvez apenas nos olhemos. E nesse olhar estará tudo aquilo que ficou por dizer.
Até esse dia chegar, sigo vivendo. Carrego você comigo. Nas minhas lembranças, nas histórias que conto, nos valores que procuro preservar e nas marcas que você deixou na minha vida.
Pai, você não está mais aqui para ouvir quando digo que sinto sua falta. Mas, ainda assim, eu digo. Eu sinto sua falta. Sinto falta da sua presença, da sua voz, do seu jeito, dos momentos que vivemos.
Mas, acima de tudo, agradeço a Deus por ter me permitido chamar você de pai. Porque algumas pessoas passam pela nossa vida. Outras permanecem. Você permanece. E enquanto eu viver, haverá dentro de mim um lugar que continuará sendo seu.
Um lugar onde a saudade mora, o amor permanece e a esperança do reencontro nunca morre. Até breve, pai.
Um dia, pela graça de Deus, a gente se encontra novamente.
Seu filho, Gilberto Correia da Silva