Como a sociedade das redes trocou a sabedoria pela opinião

 


Como a sociedade das redes trocou a sabedoria pela opinião

A frase de Zygmunt Bauman, "Estamos inundados de informações e famintos de sabedoria", talvez seja uma das mais precisas descrições da sociedade contemporânea. Ela revela um paradoxo inquietante, de que nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, mas nunca pareceu tão difícil encontrar discernimento, equilíbrio e profundidade para compreender a realidade.

Bauman viveu o suficiente para perceber que a revolução digital democratizou o acesso à informação, mas não necessariamente à sabedoria. Informação é quantidade. Sabedoria é qualidade. Informação é acumular dados. Sabedoria é interpretar, discernir e aplicar esses dados com responsabilidade e maturidade.

Nas redes sociais, esse fenômeno tornou-se ainda mais evidente. O que antes exigia anos de estudo, pesquisa e experiência, hoje muitas vezes é substituído por opiniões instantâneas, vídeos curtos, manchetes superficiais e julgamentos apressados. Criou-se uma cultura em que muitos se sentem especialistas em medicina, economia, política, educação, teologia, segurança pública, relações internacionais e praticamente qualquer tema, apenas porque consumiram alguns conteúdos sobre o assunto.

O problema não está na democratização da opinião. Em uma sociedade livre, todos têm o direito de expressar suas ideias. O problema surge quando a opinião passa a ocupar o lugar do conhecimento, quando a convicção substitui a investigação séria e quando a emoção toma o lugar da reflexão.

Vivemos a era do tribunal digital. Pessoas são julgadas em minutos. Acusações transformam-se em sentenças. A presunção de inocência cede lugar ao tribunal das curtidas e compartilhamentos. O contraditório desaparece. O diálogo é substituído pela polarização. Quem pensa diferente deixa de ser um interlocutor e passa a ser um inimigo.

A ironia é que muitos dos que mais condenam à distância frequentemente não suportariam a complexidade dos problemas reais. É muito fácil governar um país pela tela do celular. É muito fácil resolver conflitos internacionais sentado em uma poltrona. É muito fácil julgar um gestor público sem conhecer as limitações orçamentárias, legais e humanas que envolvem uma decisão. É muito fácil criticar uma igreja, uma escola, uma instituição ou uma família sem carregar o peso das responsabilidades que elas enfrentam diariamente.

As redes sociais amplificaram uma característica antiga da natureza humana. A tendência de emitir opiniões rápidas sobre assuntos complexos. Contudo, a velocidade da comunicação multiplicou esse fenômeno em escala global. Hoje, um comentário impulsivo pode alcançar milhares de pessoas em segundos, alimentando ciclos de indignação, radicalização e conflito.

Outro aspecto preocupante é a substituição da verdade pela narrativa. Muitas vezes, as pessoas não buscam compreender os fatos, buscam apenas informações que confirmem aquilo que já acreditam. Assim, criam-se bolhas ideológicas onde o diálogo se torna praticamente impossível. A verdade deixa de ser algo a ser descoberto e passa a ser algo a ser defendido, mesmo contra as evidências.

Por isso, talvez estejamos vivendo uma crise que não é apenas informacional, mas também intelectual, emocional e espiritual. Intelectual, porque confundimos acesso à informação com conhecimento. Emocional, porque reagimos mais do que refletimos. Social, porque substituímos o diálogo pela hostilidade. Espiritual, porque perdemos a capacidade de ouvir, de silenciar, de contemplar e de reconhecer que não sabemos tudo.

A sabedoria começa justamente quando reconhecemos nossos limites. O filósofo Sócrates já afirmava: "Só sei que nada sei." Não era ignorância; era humildade intelectual.

Do ponto de vista bíblico, a situação também encontra eco nas Escrituras. O profeta Oséias registra a palavra de Deus: "O meu povo está sendo destruído porque lhe falta o conhecimento", em Oséias 4:6. E o apóstolo Paulo de Tarso advertiu que chegariam tempos em que as pessoas estariam "sempre aprendendo e jamais podendo chegar ao conhecimento da verdade", conforme citado em 2 Timóteo 3:7.

Talvez o maior perigo do nosso tempo não seja a falta de informação, mas a ilusão de conhecimento. Quando alguém acredita que já sabe tudo, deixa de aprender. Quando uma sociedade perde a capacidade de ouvir, ela perde também a capacidade de crescer.

Por isso, a frase de Bauman permanece tão atual. Estamos cercados por telas, dados, estatísticas, opiniões, algoritmos e conteúdos. Entretanto, continuamos necessitando desesperadamente de discernimento, prudência, humildade, empatia e para quem acredita e tem fé, o temor a Deus.

Eis o grande desafio do século XXI, que é transformar informação em conhecimento, conhecimento em entendimento e entendimento em sabedoria. Caso contrário, corremos o risco de possuir as ferramentas mais avançadas da história e, ao mesmo tempo, caminhar coletivamente para um precipício social, emocional e espiritual, acreditando que estamos evoluindo quando, na verdade, apenas aceleramos nossa capacidade de nos perder.

Foto: Reprodução internet

Pr. Gilberto Silva – Gurupi-TO