Um episódio, muitos cancelamentos e poucas reflexões, sobre a inclusão nas escolas de Gurupi


Um episódio, muitos cancelamentos e poucas reflexões, sobre a inclusão nas escolas de Gurupi

A polêmica gerada pela fala da diretora da Escola Municipal de Tempo Integral Odair Lúcio, em Gurupi, ao se referir ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) como “transtorno da moda”, provocou uma reação imediata e intensa nas redes sociais, nas tribunas políticas e nos grupos de debate da cidade. A diretora foi duramente criticada, atacada e praticamente “cancelada”.

É necessário dizer, sem rodeios, que a fala foi infeliz e inadequada. Uma educadora, ainda mais ocupando cargo de direção, precisa ter sensibilidade e responsabilidade ao tratar de um tema tão delicado e que envolve famílias, crianças e profissionais da educação.

Mas há um problema ainda maior. A sociedade gurupiense parece ter descoberto agora que existem centenas de crianças com Transtorno do Espectro Autista na rede municipal de ensino.

O caso expôs algo que há muito tempo precisa ser discutido com seriedade. A inclusão escolar não se resolve com discursos, notas oficiais ou números apresentados em relatórios.

A gestão municipal afirma que a rede conta com 24 salas de Atendimento Educacional Especializado (AEE), professores especialistas, profissionais de apoio e uma equipe multidisciplinar formada por coordenação, supervisão, assistentes sociais e psicólogas, acompanhando cerca de 400 estudantes com diagnóstico de TEA.

A estrutura é importante e merece reconhecimento. Porém, uma pergunta precisa ser feita com honestidade: essa estrutura consegue realmente atender todas as escolas e todos os alunos que necessitam desse acompanhamento?

A matemática da realidade escolar mostra que a situação é mais complexa do que parece. Importante ressaltar que esse não é problema exclusivo de Gurupi, mas, via de regra, em todo o Brasil, possivelmente com raras exceções.

Em Gurupi, segundo a nota da prefeitura, são cerca de 400 alunos diagnosticados espalhados por diferentes escolas da rede municipal. Ainda que existam 24 profissionais especialistas ou salas de AEE, é evidente que essa equipe não consegue atuar em todas as unidades ao mesmo tempo.

Na prática, o que muitas vezes acontece é que um aluno com necessidade específica acaba esperando atendimento especializado ou, em alguns casos, o problema precisa ser enfrentado por algum professor “designado” para a função, que nem sempre possui a formação adequada para lidar com determinadas situações.

Outro ponto pouco discutido é que nem todos os casos de TEA são iguais. O espectro autista possui diferentes níveis e características. Cada criança apresenta necessidades próprias, exigindo acompanhamento individualizado, paciência, conhecimento técnico e suporte contínuo.

Quando existe um número maior de alunos em determinada escola, a atuação da equipe especializada tende a ser mais frequente. Mas quando há apenas um ou dois alunos com essa condição em determinada unidade, o atendimento muitas vezes se torna mais espaçado, e o professor da sala regular precisa lidar praticamente sozinho com o desafio.

Isso não é uma crítica isolada a profissionais da rede. Pelo contrário. Muitos professores enfrentam essa realidade diariamente, com dedicação, boa vontade e esforço pessoal, muitas vezes sem o suporte necessário.

Outro aspecto que também precisa ser tratado com equilíbrio é o papel da família. Sem generalizar, é verdade que existem famílias profundamente comprometidas com o acompanhamento de seus filhos. Mas também existem situações em que a escola acaba recebendo toda a responsabilidade pela educação, cuidado e disciplina da criança, como se fosse possível transferir integralmente para a instituição aquilo que também precisa ser trabalhado dentro de casa.

A escola tem responsabilidade educacional e inclusiva, mas a família continua sendo o primeiro espaço de formação da criança. Portanto, reduzir todo esse debate a um episódio isolado ou a uma única fala equivocada é simplificar demais um problema complexo.

Também chama atenção a postura de alguns setores políticos que rapidamente ocuparam tribunas e redes sociais para condenar a diretora, muitas vezes sem sequer conhecer de perto a realidade das escolas. Em tempos de redes sociais e proximidade eleitoral, infelizmente não são poucos os que transformam qualquer crise em palco de visibilidade e engajamento digital.

Criticar é fácil. Difícil é visitar escolas, conversar com professores, acompanhar o cotidiano de uma sala de aula inclusiva ou passar algumas horas observando o desafio real de atender alunos com diferentes necessidades.

Da mesma forma, uma capacitação anual isolada não transforma automaticamente um professor em especialista em educação inclusiva. Inclusão exige formação contínua, acompanhamento pedagógico, apoio psicológico, presença constante de profissionais especializados e políticas públicas que funcionem de fato no cotidiano escolar.

Dar vaga em sala de aula não resolve o problema por si só. Inclusão verdadeira não é apenas matricular o aluno. É garantir que ele tenha condições reais de aprender, se desenvolver e conviver.

Por isso, este episódio precisa servir como ponto de partida para uma discussão séria e responsável. A diretora poderia, sim, ter demonstrado mais sensibilidade ao tratar do tema. Mas a crise revelou algo maior, que o desafio da inclusão escolar em Gurupi é mais profundo do que muitos imaginavam. Não se trata apenas de defender ou condenar alguém. Trata-se de encarar a realidade.

A inclusão verdadeira exige compromisso de todos, sejam gestores públicos, professores, especialistas, famílias e sociedade. Porque, no final das contas, estamos falando de crianças que não precisam de polêmica. Precisam de estrutura, preparo, respeito e cuidado real. E as professores e professores, também.

Gilberto Correia da Silva – Professor Aposentado, jornalista, escritor,  pastor, capelão e presidente da Associação dos Professores Universitários da Apug.