Quando a estupidez se disfarça de patriotismo

 


  Quando a estupidez se disfarça de patriotismo


Isaac Asimov, escritor e cientista, afirmou certa vez: “Quando a estupidez é considerada patriotismo, não é seguro ser inteligente.” Essa frase, embora escrita em outro contexto histórico, ressoa com impressionante atualidade no Brasil.

O patriotismo, em sua essência, deveria ser expressão de amor responsável pela pátria, traduzido em atitudes que fortalecem a cidadania, defendem as instituições democráticas e promovem justiça social. No entanto, temos visto uma perigosa distorção desse conceito. Um “patriotismo” reduzido a slogans, gestos simbólicos e narrativas inflamadas que, muitas vezes, escondem intolerância e desprezo pelo diálogo.

Nesse ambiente, pensar criticamente se torna arriscado. Aquele que questiona discursos prontos, cobra coerência ou defende a ciência pode ser acusado de “inimigo da pátria”. É como se a inteligência e a reflexão fossem afrontas ao suposto amor à nação. O resultado é a inversão de valores. A razão é tratada como ameaça, enquanto a ignorância é aplaudida como virtude.

Os exemplos recentes de nossa vida pública são evidentes. Negacionismo científico durante crises sanitárias, ataques a professores e jornalistas, perseguição a instituições de controle e a quem ousa divergir do discurso oficial. Tudo isso mostra como a estupidez, travestida de patriotismo, corrói o tecido democrático e mina a convivência social.

O verdadeiro amor ao Brasil não se mede por bandeiras agitadas em atos de exaltação momentânea, mas pelo compromisso cotidiano com a educação, a saúde, a ética pública e o respeito às diferenças. É mais patriota o cidadão que ensina, que fiscaliza, que cobra responsabilidade de seus representantes, do que aquele que grita palavras de ordem sem refletir sobre o futuro do país.

Por isso, resgatar o valor do pensamento crítico é, hoje, um ato de coragem e de patriotismo. O Brasil precisa de cidadãos que amem a pátria com lucidez, não com cegueira ideológica. Afinal, como alertou Asimov, uma nação que premia a estupidez e hostiliza a inteligência está fadada a se perder no caminho da história.

Gilberto Silva, é jornalista, escritor, poeta, professor universitário aposentado e teólogo