Era uma tarde morna de
domingo, daquelas em que o tempo parece suspenso e o silêncio da alma consegue
falar mais alto que os ruídos do mundo. Sentei-me na varanda com uma xícara de
café pela metade e um coração pela metade também. Não estava triste, nem
exatamente alegre, apenas num daqueles momentos em que a alma pede pausa.
E foi nesse instante,
quase despretensioso, que meu olhar caiu sobre um velho conhecido do chão, um
formigueiro. Pequeno, escondido entre as pedras da calçada, quase imperceptível
aos olhos distraídos. Mas lá estavam elas, as formigas, em um ir e vir
constante, frenético, incansável. Cada uma com sua missão. Cada uma com uma
carga. Nenhuma parada. Nenhuma distraída. Nenhuma reclamando.
Observei por minutos.
Talvez por horas. E percebi algo que me desconcertou. Aquelas pequenas
criaturas sabiam exatamente o que estavam fazendo. E mais: sabiam por que
faziam.
Ali não havia confusão de
tarefas. Não havia competição por destaque. Ninguém empurrava a outra para
aparecer na fila. Ninguém “preferia não”. Todas se moviam como se dissessem:
“Importa que a missão siga.”
Pensei, então, na Igreja.
No Reino. No Corpo de Cristo. E uma pergunta me atravessou como uma flecha que
vem de dentro: será que temos sido como formigas ou como estrelas de um palco
que nem deveríamos subir?
Vivemos tempos de
microfones sem serviço, púlpitos sem bastidores, elogios sem cruz. Estamos correndo
atrás de “relevância” enquanto abandonamos a “obediência”. Mas Deus... Deus
aponta para o chão. E não para o céu estrelado, quando quer nos ensinar algo
essencial, de acordo com Provérbios 6:6: “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso,
considera os seus caminhos e sê sábio.”
Há mais sabedoria no
silêncio de um formigueiro do que em muitos debates teológicos de redes
sociais. Há mais evangelho na cooperação anônima de quem cuida de uma criança
na sala do berçário do que no brilho de quem nunca desce do púlpito. Há mais
Reino no serviço escondido do que nas palavras que não são acompanhadas de
ação.
A formiga que cuida das
larvas é tão importante quanto a que defende a entrada do formigueiro. A que
limpa os túneis é tão essencial quanto a que busca alimento lá fora. Nenhuma se
julga maior. Nenhuma se sente menor. Todas servem. E é isso que torna o
formigueiro forte. A unidade com propósito, sem vaidade.
Enquanto pensava, ouvi um
som ao longe. Era uma igreja. Um culto começava. Louvores, orações, aplausos.
Tudo certo. Mas dentro de mim, um outro culto acontecia. Um culto silencioso,
feito de aprendizado e admiração. Um culto diante de um altar que ninguém vê. O
altar da simplicidade, da entrega e da humildade.
Fechei os olhos por um instante e, como se fosse uma oração, murmurei: “Senhor, eu não quero ser leão. Nem águia, nem estrela. Eu só quero ser uma formiga do Teu Reino. Daquelas que carregam peso com alegria, que somem na multidão, mas deixam pegadas eternas no caminho da missão.”
Levantei-me da cadeira. A xícara de café agora estava fria, mas meu coração, esse sim, estava aquecido. O mundo continuava igual. Mas eu…eu já não era mais o mesmo.
Carregava comigo,
invisível aos olhos dos homens, um grão de sabedoria vindo direto do chão.
Pr. Gilberto Silva –
Gurupi-TO
