A missão da nossa geração entre o cumprimento e a traição

 


A missão da nossa geração entre o cumprimento e a traição


Vivemos tempos bicudos no Brasil. Tempos em que a divergência virou conflito, o adversário virou inimigo, e o diálogo foi substituído por monólogos inflamados. A frase do pensador Frantz Fanon: "Toda geração deve, em relativa opacidade, descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la”, parece ter sido escrita sob medida para os nossos dias.

A “relativa opacidade” de que ele fala representa bem este momento. Estamos mergulhados numa névoa densa de desinformação, narrativas extremadas e intolerância crescente. A missão da nossa geração parece embaralhada entre os algoritmos das redes sociais, os discursos de ódio e a constante tentativa de deslegitimar o outro.

Antes, convivíamos com as diferenças. Hoje, muitos fazem questão de destacá-las, radicalizá-las, amplificá-las. As vozes moderadas perderam espaço. A política transformou-se em campo de batalha emocional, afetando não apenas o debate público, mas também os laços pessoais e comunitários.

Neste cenário, é preciso lembrar que a democracia, embora ferida, ainda vive. E parte da sua vitalidade depende da preservação das instituições, especialmente do papel da Justiça. Independentemente da posição ideológica de cada cidadão, é a Justiça quem, sob o manto da Constituição, tem a prerrogativa de dirimir dúvidas, garantir direitos e manter o fluxo ordinário da vida nacional.

As divergências não podem travar o país. Não podem paralisar políticas públicas, destruir reputações à base de ilações ou colocar em xeque a estabilidade das instituições. O respeito às decisões judiciais, concordando-se ou não com elas, é pilar da democracia. Desacatar esse princípio é comprometer não apenas o presente, mas o futuro da convivência civilizada.

A missão da nossa geração, portanto, é restaurar a escuta, valorizar a convivência e resgatar a confiança no debate público. Isso exige mais do que boas intenções. Exige consciência moral individual e coletiva, exige coragem para discordar sem desrespeitar, exige maturidade para perder sem agredir e para vencer sem humilhar.

Cumprir essa missão é trabalhar por um país em que a política não seja motivo de ódio, mas de participação. É entender que não há liberdade sem responsabilidade, nem direitos sem deveres. É proteger a pluralidade de ideias como um bem precioso da nação.

Traí-la, por outro lado, é sucumbir à tentação do extremismo, do fanatismo, da intolerância. É destruir pontes e cultivar muros. É esquecer que a construção de uma sociedade justa passa, necessariamente, pela aceitação do outro e pelo respeito às regras do jogo democrático.

Frantz Fanon nos oferece um espelho. Ao olharmos para ele, precisamos responder: vamos cumprir nossa missão ou traí-la?


Gilberto Correia da Silva é professor universitário aposentado, jornalista, escritor e pastor