Cristianismo e compromisso com o ser humano
Uma resposta teológica às afirmações do pastor Tassos Lycurgo
As declarações do pastor
Tassos Lycurgo, que considera a Teologia da Missão Integral e a Teologia da
Libertação como “cânceres” na igreja evangélica e católica, respectivamente,
merecem uma análise cuidadosa e teológica. A acusação de que tais linhas de
pensamento possuem um “viés comunista” e transformam a igreja em uma “ONG”
ignora tanto as Escrituras quanto a tradição cristã, que desde os tempos de
Jesus e dos profetas bíblicos, esteve profundamente comprometida com a
dignidade humana, especialmente dos pobres, marginalizados e oprimidos.
Jesus e a centralidade do
cuidado com o próximo
O argumento de que Jesus
é "retirado do centro" quando a igreja se ocupa com a assistência
social não resiste ao testemunho dos Evangelhos. Em Mateus 14:13-21, por
exemplo, Jesus alimenta a multidão antes mesmo de fazer qualquer proclamação do
Reino.
Em Lucas 4:18-19, ao
iniciar seu ministério público, Jesus declara sua missão citando Isaías: “O
Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para proclamar boas
novas aos pobres. Enviou-me para proclamar liberdade aos presos e recuperação
da vista aos cegos, para libertar os oprimidos, e proclamar o ano da graça do
Senhor.”
Esse texto é um programa
messiânico integral que une proclamação, cura e justiça social. Jesus não
separa evangelização de ação social. Antes, as entrelaça como dimensões
inseparáveis do Reino de Deus.
Amós: o profeta da
justiça social
Muito antes de Jesus, o
profeta Amós já denunciava com veemência os pecados sociais do povo de Israel.
Sua mensagem não era apenas espiritual, mas profundamente ética e prática. Em
Amós 5:21-24, Deus rejeita o culto vazio e exige justiça: “Odeio, desprezo as
suas festas religiosas;... em vez disso, corra o juízo como as águas, e a
justiça como um ribeiro perene!”
Amós denunciou a opressão
dos pobres, a corrupção dos tribunais, a ostentação dos ricos e a indiferença
da elite. Ele mostra que Deus não aceita adoração que não venha acompanhada de
justiça. Ignorar essa dimensão profética é distorcer a Bíblia.
Missão Integral e
Teologia da Libertação - herdeiras do evangelho social
A Teologia da Missão
Integral, formulada especialmente por René Padilla e amplificada por Samuel
Escobar, nunca teve como objetivo substituir Cristo pela “cesta básica”, mas
sim afirmar que o evangelho bíblico é integral: espiritual e social, pessoal e
estrutural. Padilla afirmou: “A missão da igreja não pode ser reduzida a
evangelização, nem pode ser confundida com política. Mas a missão da igreja
inclui evangelização e responsabilidade social. Ambas fazem parte da missão
dada por Cristo.”
De modo semelhante, a
Teologia da Libertação, surgida no contexto latino-americano e protagonizada
por Gustavo Gutiérrez, também não busca ideologizar o evangelho, mas encarná-lo
na realidade dos pobres. Gutiérrez escreve em Teologia da Libertação (1971): “A
libertação é, antes de tudo, libertação do pecado e de suas consequências. Mas
ela também passa pela libertação das estruturas injustas que oprimem o ser
humano.”
Reduzir essas teologias a
uma "infiltração comunista" é um erro hermenêutico e histórico. Ambas
nasceram dentro da igreja e se propuseram a encarnar o evangelho nas realidades
concretas da América Latina. Elas não negam a proclamação da salvação, mas
afirmam que a salvação tem consequências práticas e sociais.
Cuidado com os rótulos e
com a lógica da exclusão
A afirmação de que
"não existe cristão comunista" porque seria o mesmo que "judeu
nazista" é uma analogia profundamente infeliz. O nazismo foi um regime de
extermínio, enquanto o comunismo, por mais que tenha falhas históricas e
ideológicas (como qualquer sistema humano), também possui vertentes que
buscavam justiça social, igualdade e solidariedade, valores que, em si mesmos,
não são antagônicos ao cristianismo. O cristianismo sempre se apropriou, em
parte, de ferramentas culturais, filosóficas e até políticas para comunicar sua
mensagem em cada tempo. A questão é o discernimento espiritual e teológico, não
a exclusão automática.
Ministério infantil e
visão de mundo
Quanto ao alerta do
pastor sobre o ministério infantil como “campo de ataque” do inimigo,
concordamos que toda formação deve ser feita com zelo e responsabilidade. No
entanto, considerar que professores de crianças estão sendo "instrumentos
de infiltração ideológica" é uma generalização perigosa. Jesus afirmou: “Deixem
vir a mim as crianças, não as impeçam; porque delas é o Reino de Deus” (Marcos
10:14).
A pedagogia de Jesus é
acolhedora, formativa, e jamais baseada no medo ou na suspeita. Ensinar as
crianças a cuidar do próximo, a amar os pobres, a lutar contra a injustiça e a
orar por um mundo mais justo não é comunismo: é cristianismo.
A igreja não é ONG, mas
pode ser sal e luz atuando na sociedade
O pastor Lycurgo afirma
que a igreja corre o risco de se tornar uma ONG. De fato, a igreja é mais do
que uma organização não-governamental. Mas isso não a isenta do papel de ser
sal e luz no mundo. Jesus disse: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos
homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês que
está nos céus” (Mateus 5:16).
Fazer boas obras, como
dar alimento, cuidar dos doentes, visitar os presos, é bíblico, é mandato de
Jesus, e deve levar ao louvor a Deus, não à substituição de Jesus.
A verdadeira ameaça à
igreja não está em sua solidariedade com os pobres, mas em sua indiferença.
Quando a fé é desassociada da prática do amor ao próximo, ela se torna estéril
e hipócrita. O apóstolo Tiago é direto: “A fé sem obras é morta” (Tiago 2:17).
Portanto, rejeitar
teologias que colocam a missão da igreja no coração da vida concreta das
pessoas, chamando-as de “comunismo”, é, na verdade, um risco de se cair em um
evangelho desencarnado, distante da cruz, da graça e da justiça de Deus.
Pr. Gilberto Silva –
Gurupi-TO
